Mecanismos internos
Comentário sobre o novo livro de Michel Laub; a questão autobiográfica
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Chegar tão próximo de si próprio com honestidade: como se faz?
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Por mais piegas que seja, a palavra nos aproxima de um tipo de verdade fundamental sobre nós mesmos, nos leva para as bordas de nosso eu oculto, um lugar meio impossível de acessar de todo. É uma experiência similar à de ler um bom romance: você está mais perto de alguma coisa indefinida que apenas pode intuir.
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Em outras edições desta newsletter, escrevi sobre meus períodos sabáticos de álcool e sobre o que eu sinto quando bebo. Em todas, senti um leve incômodo, como se antecipasse julgamentos. Estou passando mais uma vez por um período desses, que, percebo, se tornaram mais frequentes nos últimos três ou quatro anos e parecem desvelar uma vontade de parar de vez de beber (ai, meu carnaval querido). No dia em que publico este texto, estou há 56 dias sem álcool. Não à toa, comento com amigos que ando me sentindo em paz, e você sabe como isso é raro num mundo tão afeito à performance.
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Quando escrevo sobre coisas que se passam comigo, percorro um caminho interno desconhecido. Por mais que o tema possa ser o mesmo, como acontece com esse texto sobre o álcool, inauguro novas particularidades do pensamento, como se abrisse novos caminhos numa floresta mágica. Isso exerce uma força sobre mim. Por outro lado, me abandono à construção que o leitor faz de quem eu sou, sobre a qual não tenho nenhum domínio. Não é uma posição segura, quiçá confortável. Acredito que desse embate emerge um princípio sobre o qual se fundamenta à experiência da literatura: estar em outra pele, habitar, mesmo que por instantes, o lugar do outro. Sem a capacidade da empatia, não faria sentido ler nem escrever.
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Dias atrás, li de uma só vez o novo livro de um dos autores brasileiros contemporâneos mais interessantes para mim, o Michel Laub. Verão na névoa é um ensaio pessoal que vai dos mecanismos autobiográficos nas obras de Coetzee e de Renato Russo à experiência de Laub com as drogas, em especial a cocaína. É um texto ágil, inteligente, articulado e, mais do que tudo, corajoso. A narrativa alterna primeira e terceira pessoa: nesse distanciamento floresce o desejo de se ver como se é, evocando um ponto de vista outro para testar os limites do que é confessável por meio do discurso literário. Nessa fricção, a honestidade rebrilha, piscando para o que há de oculto no leitor. Esse mecanismo é mais sofisticado que simplesmente falar de si mesmo – é sobre isso que o livro está pensando.
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Em certa altura do texto, o narrador está falando sobre como a sensação de névoa provocada pelo uso regular da cocaína faz “diminuir o interesse e o gosto pela vida”. Eu sei o que ele está dizendo. Acostumado a ter o álcool como mediador de experiências sociais e de diversão, consumindo-o às vezes de forma irresponsável, sobretudo nos primeiros anos da juventude (mas não só), é difícil reposicionar as sensibilidades para outras maneiras de conversar, tocar, sentir, esperar por alguma coisa, imaginar o que se passa dentro da cabeça dos outros sem o empurrãozinho inebriante do álcool. É como se, com o passar dos anos de uso, desligássemos nossos receptores de subjetividade que só existe na sobriedade, como se aqui estar sóbrio fosse o mesmo que ser de novo inocente perante os sentimentos. Nesse sentido, dissipar a névoa é também apostar na verdade sobre mim, essa coisa fugidia, real e imaginária na mesma medida.
“Tentar sair da melancolia é uma luta para manter a fé no que sou e faço desde que abro os olhos de manhã, abrangendo aí a escrita. A obra de Coetzee é um norte nessa hora: nela reconheço a coragem, a esperança de que — num paradoxo tão literário, e portanto tão verdadeiro — o diálogo com o mundo possa renascer da forma como se lida com a solidão.”
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“Como ele se vê quanto a drogas em geral: alguém que nunca teve convulsões, nem foi a uma padaria tomar cachaça de manhã cedo, nem sentiu que estivesse próximo de uma ruína psíquica ou financeira, mas também nunca foi a uma festa e se sentiu confortável estando sóbrio.”
Essa terceira pessoa do texto poderia ser eu. É assim que também enxergo minha relação com as drogas (na verdade eu nem gosto muito de drogas, tirando o álcool). Essa frase é tão descaradamente clara sobre mim que não entendo por que a sublinhei no livro. Nem sei bem o que queria dizer sobre ela quando a pincei para juntá-la a este texto. Tem algo no tom confessional que me faz pensar em como tantas vezes rodeamos as palavras sem coragem de anunciá-las por temer o seu efeito. Em todos os anos de análise e outras abordagens de psicoterapia, nunca usei a palavra alcóolatra para me referir ao meu pai. Narrei como ele não foi ao hospital para o meu parto porque estava no bar bebendo e jogando com amigos, mas nunca usei a palavra alcóolatra ou alcoolismo. Se estou agora escrevendo sobre minha relação com a bebida é porque vejo nessa mesma disposição corajosa de Laub a possibilidade de pensar sobre os efeitos das palavras num mundo em que artistas modulam o que dizem para aquilo que o leitor quer ouvir.
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